À 6ª feira...Estudos&Estórias - Guerras Cambiais

À 6ª feira... Estudos&Estórias - 2012-05-18


Guerras Cambiais

Guerras quê???

"O mundo está numa guerra cambial". Esta declaração de Guido Mantega, Ministro das Finanças brasileiro, granjeou-lhe notoriedade global por evidenciar a natureza "bélica" das políticas monetárias prosseguidas pela generalidade das principais economias. Mas o que significa belicismo da política monetária? Pode a taxa de câmbio ser um instrumento de agressão? As guerras cambiais, que não são de hoje, consistem na manipulação da moeda de um país por forma a forçar uma vantagem face aos parceiros comerciais. Esta estirpe de guerra tende a ocorrer em contextos económicos e financeiros conturbados, como aquele que vigora desde 2008. Nestas situações, a política económica perde eficácia na reanimação da atividade doméstica, pelo que as autoridades de alguns países, frequentemente acossadas por pressões sociais, tentam gerar por via externa o crescimento que a letargia interna não produz.

A mecânica deste tipo de ofensiva assenta na desvalorização competitiva da moeda, tendo em vista tornar os produtos nacionais mais baratos no exterior e os produtos estrangeiros mais caros internamente. Tal estratégia promove as exportações e produz o efeito contrário nas importações; a atividade doméstica sai duplamente estimulada e o emprego recupera. O caráter bélico desta estratégia resulta do facto da vantagem competitiva advinda da manipulação cambial exercer um efeito simétrico na competitividade dos parceiros comerciais. Mas como escreveu Clausewitz, o historiador e teorizador militar prussiano, "a guerra é a condução da política por outros meios", a que se recorre quando todas as outras alavancas falham e a situação se deteriora. Foi isso que fez Roosevelt no clímax da Grande Depressão, ao suspender a convertibilidade do dólar em ouro, dessa forma, provocando uma desvalorização competitiva, nomeadamente contra a então dominante libra esterlina. Este evento foi, segundo a ortodoxia, decisivo para o início da reabilitação da economia dos EUA em 1933. É esta interpretação, ainda popular entre Banqueiros Centrais e Governantes, que inspira as guerras cambiais que Mantega refere. Mas será a manipulação cambial eficaz a promover o bem-estar?

Desvalorização cambial: míssil ou boomerang?

Como qualquer ato de agressão, as guerras cambiais suscitam nas "vítimas" sentimentos e reações retaliatórias. Por essa razão é crucial preparar o ataque de modo dissimulado para minimizar a capacidade do "inimigo" ripostar. Esta tática, que corporiza o postulado de Sun Tzu para quem a arte da guerra se baseia na dissimulação, foi também a marca de água dos grandes estrategas militares, desde César a Napoleão. Na prática, porém, as guerras cambiais tendem a provocar uma escalada das hostilidades que por vezes transcendem a simples manipulação cambial. Tarifas aduaneiras, embargos comerciais e mesmo intervenções militares, amiúde integram o arsenal. Mas a maior perversão das guerras cambiais reside no facto do principal prejudicado ser a população do instigador original.

Desde logo porque uma desvalorização competitiva implica a perda de poder de compra da moeda, com prejuízo para os seus utilizadores, ou seja os cidadãos nacionais.

Por outro lado, o aporte de competitividade gerado pela desvalorização cambial resulta exclusivamente da perda de bem-estar dos trabalhadores que vêm o seu salário real reduzido pelo encarecimento da componente importada do custo de vida. Acontece que os ganhos de competitividade se esfumam assim que os trabalhadores, apercebendo-se dos efeitos inflacionistas da desvalorização competitiva, exigem aumentos salariais. A este respeito é útil relembrar que as convulsões sociais, como a primavera Árabe ou a contestação que levou ao Massacre de Tiananmen, normalmente resultam do aumento abrupto do custo de vida. Daqui se conclui que desvalorizações competitivas não são mísseis apontados à economia dos parceiros comerciais, mas boomerangs que retornam com intensidade redobrada contra quem os arremessou. Tal conclusão é confirmada pela evidência gráfica disposta em baixo.

Vencedores e vencidos

O ingrediente principal das guerras cambiais é a credibilidade, pelo que só países "sérios" podem lançar ofensivas cambiais. O problema é que a política sistemática de depreciação implica uma expansão monetária que torna o agressor vulnerável a uma perda súbita de confiança. Em resultado, quanto mais o conflito durar, maior o custo económico de um armistício. O corolário, inesperado, sem dúvida, reza que ganha a guerra cambial quem primeiro desistir, já que isso implica estabelecer um sistema monetário sólido. Curiosamente, estão mais perto da vitória os países detentores das moedas periféricas, por serem as com endividamento menos patológico. A estas bastaria uma retirada coordenada do sistema monetário vigente para condenar as moedas hegemónicas: dólar, euro e iene. Tal sugestão pode parecer excêntrica, mas só para quem escolher ignorar a história da ascensão e queda do poder económico, da qual a marcha inexorável em curso do renmimbi poderá ser o próximo capítulo.

Moedas mais fracas não geram competitividade
Moedas mais fortes protegem o emprego
Fonte: Bloomberg, Research Mercados Financeiros Mib e Millennium bcp

Saiba mais sobre os principais Mercados Financeiros na área de Research do millenniumbcp.pt

José Maria Brandão Brito
Responsável pelo Research Mercados Financeiros do Millennium bcp

2012-05-18


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